Abstract Nonsense [(quase) sem links].
"Maverick Mathologist" é o termo com que o matemático americano Paul Richard Halmos* se auto-definiu**. No jargão próprio de PRH, "mathologist" é um matemático puro, que ele defendia ser diferenciado do "mathophysicist" -- alguém que faz matemática aplicada --, para o bem de ambos (embora os primeiros setejam muito mais interessados na distinção) ***.
Mas o fato é que apesar de ter nascido para a "mathology", acabei trilhando um caminho inverso. Graduei-me em engenharia elétrica (ênfase em automação e controle). No mestrado, dediquei-me a modelagem matemática via dados experimentais (especialmente dinâmica caótica). Agora, no doutorado, estou com os oligopólios mistos (mas com alguma aplicação ao setor elétrico).
Nesse ponto, é interessante notar que os primeiros posts deste blog tenham dado ao Hermenauta uma impressão tecnicista: "Um cara vidrado em Hardware Evolutivo". A série de posts abaixo resulta de um survey paper (puramente descritivo) que preparei ainda na graduação, publicado em periódico. Como não tinha especial motivação com síntese de controladores, arquiteturas de rede e afins, eu sempre buscava vôos mais altos. Uma rápida nota numa Scientific American de aproximadamente 2000 despertou-me a atenção (e então pouco se encontrava sobre o assunto em português). O que veio depois manteve-me ocupado e feliz por uma semana +. Então é preciso que fique claro que a série de posts retrata bem o que aconteceu com o Hardware Evolutivo desde sua criação até mais ou menos o fim da década de 1990. Desde então não acompanhei mais os avanços, embora eu tenha mantido a atualização em minha lista de tarefas pelos últimos 5 anos. Se o material ainda é referência sobre o assunto em português (na Internet) é porque faltou um esforço maior de divulgação (e aqui temos um grupo forte na PUC-Rio, com um especialista brasileiro que passou pela Nasa, Ricardo Zebulon).
Apesar das aparências este blog não surge com intenção tecnicista clara. Este será seu foco apenas ocasional, desde que o tema em si seja de apego quase emocional e que eu tenha grande interesse em divulgar (de uma forma um pouco mais extensa e cuidadosa) em português ++. Porém, nem sempre serão postados textos consolidados e acessíveis. A vindoura série "Quimiotaxia e Otimização", por exemplo, aparecerá em estado bruto (está mal escrito) e exigirá certos pré-requisitos para ser aproveitada +++.
Eu não estou queimando pontes (ao menos não oficialmente :^), mas apenas tentando fazer com que as pessoas valorizem os caminhos alternativos.
* PRH nasceu na Hungria -- assim como John vou Neumann e Paul Erdös --, mas sempre rejeitou a exploração da conexão. Ele deixou o país aos 13, e não dá qualquer crédito ao período húngaro sobre sua formação. O descobri recentemente e caí de amores por seu estilo. PRH sempre achou que a matemática não precisa receber financiamento público, e que assim o esforço de explicar sua importância aos formuladores de políticas -- e de torná-la mais atrativa -- não é justificável. Achava também que a matemática não precisa de computadores -- exceto talvez em áreas como teoria de números (mas ainda assim: "Efficiency is meaningless. Understanding is what counts"). Ele faleceu no último dia 02 de outubro, aos 90 anos de idade.
** Em entrevista concedida ao também matemático Donald J. Albers, originalmente publicada no "Two-Year College Mathematics Journal" em setembro de 1982 (volume 13, número 14).
*** Para expressar essa visão, PRH publicou um artigo provocativamente entitulado "Applied Mathematics is Bad Mathematics" (incluído na coletânea "Mathematics Tomorrow", 1981, da Springer-Verlag; L.A. Steen (ed.)). Basicamente, ambas formas estão, ao menos em um sentido trivial e um tanto frívolo, /enraizadas/ no mundo físico, mas a matemática pura não teme divergir dele (ou mesmo /deve/ divergir) ao longo do seu desenvolvimento. Mas isso em geral não significa que ela não possa ser "útil". No caminho da matemática pura podem surgir /sub-produtos/ teóricos que terminam encontrando (então quase que por sorte) aplicações no mundo físico. Mas enquanto o "physicist" tende a ver na aplicabilidade a única (ou maior) justificativa para a teoria, o matemático puro vê na conexão estabelecida o único aspecto interessante da aplicação (De gustibus non disputandum est?). Uma instância particularmente interessante dessa discussão está representada na /teoria das categorias/, que estudantes em difíceis momentos de auto-indulgência (e os "physicists" também, evidentemente) chegam a classificar como "abstract nonsense".
+ Tudo aconteceu no seio de uma disciplina de arquitetura de computadores, e o já antigo interesse por algoritmos evolucionários levou-me à programação genética e dela ao seu uso direto na configuração de circuitos. Cheguei a montar um projeto prático, mas de um lado faltou financiamento e do outro meu interesse foi decaindo com rapidez.
++ A despeito de minha formação oficial, a tecnologia me é quase que apenas um hobby, e ainda assim está praticamente restrita a: engenharia evolucionária, rádio (este muito amplo mesmo). O mesmo Hermenauta me pergunta, aliás, se sei alguma coisa sobre Smart Radio, mas não sei mais do que se encontra nos wikis (o que é pouquíssimo). Qualquer interesse nessa linha entra em conflito com o tradicional desgosto do dexista com o esvaziamento das ondas curtas (vide a celeuma em torno do rádio digital).
+++ Os mais antenados já devem ter notado que essas duas séries já apareceram em meus antigos blogs.
Mas o fato é que apesar de ter nascido para a "mathology", acabei trilhando um caminho inverso. Graduei-me em engenharia elétrica (ênfase em automação e controle). No mestrado, dediquei-me a modelagem matemática via dados experimentais (especialmente dinâmica caótica). Agora, no doutorado, estou com os oligopólios mistos (mas com alguma aplicação ao setor elétrico).
Nesse ponto, é interessante notar que os primeiros posts deste blog tenham dado ao Hermenauta uma impressão tecnicista: "Um cara vidrado em Hardware Evolutivo". A série de posts abaixo resulta de um survey paper (puramente descritivo) que preparei ainda na graduação, publicado em periódico. Como não tinha especial motivação com síntese de controladores, arquiteturas de rede e afins, eu sempre buscava vôos mais altos. Uma rápida nota numa Scientific American de aproximadamente 2000 despertou-me a atenção (e então pouco se encontrava sobre o assunto em português). O que veio depois manteve-me ocupado e feliz por uma semana +. Então é preciso que fique claro que a série de posts retrata bem o que aconteceu com o Hardware Evolutivo desde sua criação até mais ou menos o fim da década de 1990. Desde então não acompanhei mais os avanços, embora eu tenha mantido a atualização em minha lista de tarefas pelos últimos 5 anos. Se o material ainda é referência sobre o assunto em português (na Internet) é porque faltou um esforço maior de divulgação (e aqui temos um grupo forte na PUC-Rio, com um especialista brasileiro que passou pela Nasa, Ricardo Zebulon).
Apesar das aparências este blog não surge com intenção tecnicista clara. Este será seu foco apenas ocasional, desde que o tema em si seja de apego quase emocional e que eu tenha grande interesse em divulgar (de uma forma um pouco mais extensa e cuidadosa) em português ++. Porém, nem sempre serão postados textos consolidados e acessíveis. A vindoura série "Quimiotaxia e Otimização", por exemplo, aparecerá em estado bruto (está mal escrito) e exigirá certos pré-requisitos para ser aproveitada +++.
Eu não estou queimando pontes (ao menos não oficialmente :^), mas apenas tentando fazer com que as pessoas valorizem os caminhos alternativos.
* PRH nasceu na Hungria -- assim como John vou Neumann e Paul Erdös --, mas sempre rejeitou a exploração da conexão. Ele deixou o país aos 13, e não dá qualquer crédito ao período húngaro sobre sua formação. O descobri recentemente e caí de amores por seu estilo. PRH sempre achou que a matemática não precisa receber financiamento público, e que assim o esforço de explicar sua importância aos formuladores de políticas -- e de torná-la mais atrativa -- não é justificável. Achava também que a matemática não precisa de computadores -- exceto talvez em áreas como teoria de números (mas ainda assim: "Efficiency is meaningless. Understanding is what counts"). Ele faleceu no último dia 02 de outubro, aos 90 anos de idade.
** Em entrevista concedida ao também matemático Donald J. Albers, originalmente publicada no "Two-Year College Mathematics Journal" em setembro de 1982 (volume 13, número 14).
*** Para expressar essa visão, PRH publicou um artigo provocativamente entitulado "Applied Mathematics is Bad Mathematics" (incluído na coletânea "Mathematics Tomorrow", 1981, da Springer-Verlag; L.A. Steen (ed.)). Basicamente, ambas formas estão, ao menos em um sentido trivial e um tanto frívolo, /enraizadas/ no mundo físico, mas a matemática pura não teme divergir dele (ou mesmo /deve/ divergir) ao longo do seu desenvolvimento. Mas isso em geral não significa que ela não possa ser "útil". No caminho da matemática pura podem surgir /sub-produtos/ teóricos que terminam encontrando (então quase que por sorte) aplicações no mundo físico. Mas enquanto o "physicist" tende a ver na aplicabilidade a única (ou maior) justificativa para a teoria, o matemático puro vê na conexão estabelecida o único aspecto interessante da aplicação (De gustibus non disputandum est?). Uma instância particularmente interessante dessa discussão está representada na /teoria das categorias/, que estudantes em difíceis momentos de auto-indulgência (e os "physicists" também, evidentemente) chegam a classificar como "abstract nonsense".
+ Tudo aconteceu no seio de uma disciplina de arquitetura de computadores, e o já antigo interesse por algoritmos evolucionários levou-me à programação genética e dela ao seu uso direto na configuração de circuitos. Cheguei a montar um projeto prático, mas de um lado faltou financiamento e do outro meu interesse foi decaindo com rapidez.
++ A despeito de minha formação oficial, a tecnologia me é quase que apenas um hobby, e ainda assim está praticamente restrita a: engenharia evolucionária, rádio (este muito amplo mesmo). O mesmo Hermenauta me pergunta, aliás, se sei alguma coisa sobre Smart Radio, mas não sei mais do que se encontra nos wikis (o que é pouquíssimo). Qualquer interesse nessa linha entra em conflito com o tradicional desgosto do dexista com o esvaziamento das ondas curtas (vide a celeuma em torno do rádio digital).
+++ Os mais antenados já devem ter notado que essas duas séries já apareceram em meus antigos blogs.


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