03 dezembro, 2006

Esboço impensado.

A imprensa brasileira parece ter incorporado um discurso "generalista", não-ideologizado, derivado da superfície da globalização econômica e cultural, e talvez por isso sofra ataques tanto da esquerda mais convicta ("elitista", "denuncista acéfala"), da direita mais convicta ("esquerdista", "covarde") e mesmo dos nem-tão-convictos-que-preferem-confiar-mais-na-inteligência-por-si ("amadorismo em assuntos como economia e ciência"). A imprensa já não fala mais ao público que se pretende de "maior substância" -- na verdade um tanto deslumbrados e ingênuos --, nem consegue representar bem os nem-tão-facilmente-impressionáveis, porque tem sido mais um reflexo da realidade prática do cotidiano apressado que nos envolve, de informação exponencialmente crescente e conhecimento desvalorizado. Seu trabalho nem sempre é completamente informado e dificilmente envolve algum esforço analítico e rigor suficiente. Essa imprensa fala agora de fato para um grupo distinto; tanto os deslumbrados quanto os não-impressionáveis já migraram há algum tempo para outra plataforma informativa, a Internet, de onde têm ao menos mais facilidade para confrontar fontes distintas e algum espaço para análise e discussão. A velha imprensa parece estar então confinada a um público que não tem qualquer "pretensão construtiva" e que por isso exibe uma margem de influência muito pequena. No entanto, os dois grupos rivais de deslumbrados cultiva hoje uma crescente obsessão por patrulhar essa velha imprensa e transformá-la em seu campo de batalha preferencial, fingindo ter ela um impacto muito maior que o real.

Temos então, de um lado, um grupo que denuncia o fato da imprensa ter supostamente "abandonado os anseios populares e passado a falar para si mesma". Inconformado, esse grupo pleiteia, em diferentes níveis de organização, a implementação de diversos mecanismos de incentivos que direcionem a atividade ao supostamente existente "interesse nacional comum". Do outro lado, há um grupo que legitimamente reconhece a ameaça do cerceamento a liberdade -- apresentada pelo grupo rival sob disfarce de progressismo e sensibilidade social --, mas prefere responder a isso de forma histérica e ineficiente, usualmente aplicando um arcabouço tão frágil quanto o primeiro, fundamentado em premissas profundamente irrealistas. Entre esses dois grupos parece não haver a menor possibilidade de debate.

Para nossa verdadeira desgraça, o terceiro grupo -- o dos não-impressionáveis --, que idealmente teria maior facilidade para dialogar com os outros dois, tem encontrado grandes dificuldades. Há os que são acusados de na verdade militar em um dos extremos e os que são desqualificados justamente por não se alinhar de forma sistemática. O principal, porém, é o grande desinteresse da massa não-fortemente-ideologizada e não-consciente de consumidores de informações em qualquer consideração mais profunda e de longo-prazo da realidade. O resultado é que diante disso -- talvez até por higiene --, muitos preferem se recolher e esperar a emergência de um ambiente menos inóspito às inteligências.

1 Comments:

Blogger Renato C. Drumond said...

Então me adicione:

http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=18163450316305693928&pcy=3&t=0

1:39 PM  

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